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2007/05/05

É só marcar o local e a hora... 

Ou só a hora e tentamos encontrarmo-nos por acaso..

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2006/10/03

- Acho que é... sei lá... 

- Esfuziante...
- Isso! É essa a palavra certa! Acho verdadeiramente esfuziante...
- Eu também... Esfuziante no sentido mais próprio...
- Sim, concordo... Esfuziante...
- Esfuziante escreve-se com s ou com z?...
- Es-fu-zi-ante... Acho que é com s...
- Es-fu-si-ante... É, deve ser... É com s é, claro...
- Esfusiante... Verdadeiramente esfusiante...
- É...

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2006/09/30

- Quer um autógrafo, portanto... 

- Sim... Não é para isso que aqui está?...
- Claro... Quer que escreva alguma coisa?...
- Você é que é o escritor...
- É que posso simplesmente assinar, pôr a data e fica arrumado... Ou então escrevo uma coisita qualquer... Como é que prefere?...
- Faça como entender... Mas não me rabisque isso tudo... Ainda nem paguei o livro...
- Claro...
- Está a rir-se de quê?...
- Nada... Vou só assinar e pôr a data, pode ser?...
- Escreva mais qualquer coisita, homem! Afinal isto é uma sessão de autógrafos... É escritor ou não é escritor?... Assim uma frase gira, já agora...
- Posso só assinar e pôr a data?... É que assim de repente... Não me lembro de nada...
- Você é que sabe... Mas isso até eu fazia...
- Vou só assinar e pôr a data, pode ser?...
- Poder pode, mas...
- Desculpe, lá...
- Paciência... É a si que pago livro?... Tem troco de 50 euros?...

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2005/07/06

O que mais perturba o homem, desde o início, é a visão dos "restos mortais" de outrém. 

A partir daí, sempre que vai a espelho, dá de caras com os próprios.
"Restos mortais"... o eufemismo perfeito.

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2005/06/01

Ergui-a nas palmas das minhas mãos, 

encostei-a ao peito devagarinho e abraçamo-nos. Não falamos mas acho que ela gosta de mim... Cheira a verdade.

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2005/04/07

É agora, é agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poe...

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2004/11/15

MANUAL DE DEFESA PESSOAL 

“Antes de uma mão forte, procura um coração audaz.”

É através de máximas como esta que os mestres das artes de combate condensam e transmitem o seu saber aos pupilos. Daí que fique bem começar este curso urbano de defesa pessoal assim, com classe e tradição. Mas na selva que é esta sociedade organizada, onde, apesar de tudo, ainda impera a lei do mais forte, importa, para sobreviver, deixarmo-nos de tretas e aceitar o facto de já ninguém ter tempo ou paciência para metáforas e insinuações. Há que ser prático, preciso, directo, o que é preciso é despachar pois não há tempo. E uma coisa é certa, de facto (a máxima lá de cima está muito bem, não está?, foi inventada há coisa de dois minutos... Obrigado. É uma coisa óbvia, mas mesmo assim...): em regra o mais forte não é o mais musculoso nem o mais ágil – é o mais esperto. Desde que não esteja fisicamente inválido, naturalmente. (Já agora, por falar em máximas, que tal esta: “No dar e levar, o importante é ser mais generoso que o nosso adversário”. Inventada agora mesmo... Bom, a verdade é que nunca se inventa nada, isto já está tudo inventado, o que nos limitamos a fazer é reciclar velhas ideias... Tempos difíceis, estes...). O poder de um indivíduo avalia-se a partir sua capacidade de decidir e adaptar-se, na sua habilidade para avaliar e escolher e agir. (E que tal este belo brocardo: “um adversário é vencido quando perde a vontade de lutar”. Foi coisa que nos veio à cabeça assim de repente, mas de certeza que já alguém o disse, não nos lembramos de quem...) De maneira que importa deixarmo-nos de tretas e aceitar o facto de já ninguém ter tempo ou paciência para metáforas e insinuações... (que é outra frase que nos parece familiar...). Mas para se ser esperto é preciso coragem, ter o tal coração audaz. E a primeira pergunta que um aluno deste curso-urbano-de-defesa-pessoal deve fazer é: serei corajoso? E se não for, poderei tornar-me num tipo(a) corajoso(a)? Ora, sem coragem não se faz nada, temos de ser corajosos a todo o instante. Está cientificamente provado, todavia, que a maneira mais fácil de ser corajoso é não ter consciência de se estar a ser corajoso. Por isso, a primeira lição deste curso-urbano-de-defesa-pessoal é: não queiras saber se és corajoso, não ligues a isso. O que é o mesmo que dizer, traduzido para a forma de máxima, que é mais giro: “Não queiras saber se és corajoso, não ligues a isso”.
E depois? Depois é manter uma atitude reivindicativa e voluntariosa de que nunca deveríamos ter prescindido. Já é tempo de o português se libertar do nacional porreirismo com que se auto amordaçou durante décadas, resquícios de um regime bolorento que se devem finalmente eliminar. Isso de sermos um pais de brandos costumes, é sabido, foi a mentira mor com de que um regime conservador se serviu para nos domar, e que consistiu, na prática, numa razia à nossa auto-estima colectiva. Desde então não temos sido senão “portuguesinhos”. Pelo que, posto isto, estamos em condições de passar à segunda lição deste curso-urbano-de-defesa-pessoal: “É verdade, confirma-se – você é um cidadão deste mundo como outro qualquer, e dos que não está para aturar tudo e mais alguma coisa”.
As premissas como as explanadas nestas duas primeiras lições são, para já, o mais importante neste curso. Os cidadãos-pupilos deverão, durante a próxima semana, treinar estas técnicas – uns bons cinco minutos por dia será suficiente – com os amigos, os vizinhos, ou mesmo com os inimigos, para quem já os tiver catalogados, para depois absorverem com maior facilidade os truques e golpes que, de seguida, aqui se irão apresentar e ilustrar.
Hoje podemos dizer que há pessoas que vivem toda a vida sem terem de ir ao focinho a alguém, o que é, por si só, um avanço civilizacional espantoso. Mas, a bem da afirmação da dignidade de todo o indivíduo, portugueses incluídos, isso vai ter que acabar. Sim, a confrontação física. Sem pudores, vamos aqui explicar como resolver as coisas à chapada. É tempo de nos fazermos valer como merecemos.

Próxima lição: O murro enquanto uma afirmação ontológica.

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2004/07/27

Delirium corrente calami (é quase latim...) 

- Apetecia-me era matá-lo!...
- Oh!... Tens cada uma!...
- Sim, matá-lo, por que não?...
- Matá-lo? Ias matar o homem por causa disto?
- Com uma faca...
- Ok. Vamos mas é embora que eu amanhã tenho de levantar cedo...
- Vamos matá-lo?...
- Vamos, um dia destes a gente vem cá e mata-o...
- Vamos matá-lo?... Passamos-lhe o carro por cima e pronto...
- Estás mais bêbedo do que eu, isso é seguro...
- Tens aí uma faca?...
- Não. Tenho um carro... Mas não vamos matar ninguém com o carro. Vamos embora, é tarde...
- E um pau, não arranjas aí um pau?... Filho da mãe!... Eu mato-o!...
- Um ferro era melhor... Está ali um ferro, queres aquele ferro...
- Boa!...
- Estou a brincar... Onde vais? Anda cá!... Se matas o gajo nunca mais falo para ti, pá!...
- Aaaaaahhhhh!!!...
- Olha que cais!... O gajo está naquele sentido da rua...
- Aaaaaaaaahhhhhhhhh!!!...
- Tu cais... Oh! Estás a ver!... Eu avisei.... Magoaste-te?...
- Acho que parti uma perna...
- Não... Só rachaste a cabeça... Melhor chamar uma ambulância... 

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2004/06/29

Sim, é agora! É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos,  

disse o poeta saindo da piscina num impulso enérgico, como um golfinho tornado homem, assentando os pés no mármore da laje, erguendo-se, forçando a água (e uma brisa) a escorrer-lhe sobre a pele e sentido estalar no cérebro os suaves acordes do primeiríssimo verso.

Mas, ao contrário do que seria desejável, o sol manteve-se indiferente, lá no pico do céu vibrante, com o seu pesado lastro a consumir o ar, a diluir as sombras em lume brando, sempre a chatear, o filho da mãe!...

Fica para a próxima, disse o poeta por fim, ensaiando um arrojado e vistoso mortal à retaguarda, que o fez regressar, de chapão, ao imenso azul fresco e cintilante. Foi a ponto de aproveitar para, em pleno voo, gritar: iiiiiiiaaaauuugluglugasp!...
(aproveitou para gritar “iiiiaaaaaaauuuuu” etc. porque podia. E porque era giro gritar de pernas para o ar...)


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2004/06/14

É agora, é agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos,  

disse o poeta ontem, Domingo, às três da tarde, no preciso momento em que dava o vigésimo quarto passo da série de cinquenta passos (sessenta no máximo) que definiu como suficientes para atravessar a superfície plana da frigideira em que se tornara aquela Praça do centro da cidade sob um sol gordo e insolente.

Mas, ao contrário do que seria desejável, não seriam cinquenta nem sessenta, aquilo foi preciso mais de cem passos ou o caraças para chegar ao quase refúgio na sombra escaldada da parede do prédio mais próximo, livra!...
Fica para a próxima, disse o poeta por fim, praguejando em dois vocábulos rancorosos e lançando o corpo para dentro de uma cervejaria com ar condicionado que lhe acenou da esquina.
(Lançou o corpo para dentro de uma cervejaria porque podia e porque tinha no bolso uma abençoada moeda de dois euros que lhe sobrara do almoço. Olaré!...)

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2004/05/26

Palavra para hoje: Incongruência (é fixe, não é?...) 

Vá lá, todos: Incon.....
Mais alto: Incon....
Gru...
Ên....
Cia....

(É muito gira a palavra...)

Travez: Incon... Incon..., mais forte, INCON...
Gruuuuuuuuuuuuuuuu...
Ên, ên, ên, ên.....
Ci, ci, ci, ci, ci, ci.... ci ci ci ci ci ci ci....
(é tão giro...)
agora num fôlego: Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...

Boa, podem sair....

(aqui as palavras são tratadas muito melhor do que ali... "Etimologia hebdomadária"? A pedante!...)

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2004/05/04

É agora! É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta...
Ai não é não!, corrigiu logo a seguir, lembrando-se de que se encontra sequestrado no absurdo mundo da televisão...

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2004/04/23

Palavra para hoje: Amor. 

(Nãããã!... buuuu, que foleirice, outra palavra, essa não! Era o que faltava: pieguices pela manhã?!... Fora! Outra palavra, outra palavra, deixa-te de merdas!... Buuuuu!...)

Bom...

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2004/04/05

E agora o poema, enfim… É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, acendendo o cigarro com a mão esquerda e guardando a pistola ainda fumegante no coldre do sovaco, com a direita. Soprou o fumo para cima do cadáver que se esvaziava de sentido, o sangue a coalhar-se na boca entreaberta, o olhar petrificado, fixo no buraco recém inaugurado no meio da testa. Empurrou o chapéu para a nuca e descontraiu os ombros. Pela janela, a cidade assistiu em silêncio ao crime. Estava vingado, por fim, as contas saldadas com o passado. Mas só um poema lhe poderia dar essa certeza, e lhe daria a libertação moral e a razão para continuar a viver no mundo de acossados que o engoliu e lhe penhorou a vontade.

Mas, ao contrário do que seria desejável, não seria com versos que escaparia à perseguição dos bófias que já se fazia anunciar com uma sirene enraivecida, lançada em ricochete contra os prédios da 5ª avenida.
Fica para a próxima, disse o poeta por fim, puxando a gola da gabardina, enterrando o chapéu, girando para a porta e regressando à sombra.
(Girou para a porta e regressou à sombra porque podia e porque dá um efeito bonito em película a preto e branco…)


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2004/04/04

Palavra para hoje: Concupiscência. 

Concu...
pis...
cência...
Tudo seguido: concupiscência...
Mais rápido: cocpscêcia...
Muito bem...

Ao trabalho!...

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2004/03/25

Pronto. É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta colocando a última pasta no armário (3/Z- 03/04), emergindo da repartição pública terrena e alcançando enfim o tempo da planície verdejante de que planeara servir-se para soltar as suas palavras. Abriu a porta aos substantivos primeiro, para se fartarem de trevos e ervinhas tenras, e depois aos pronomes pessoais, artigos e proposições, mais numerosos e traquinas. Aproveitou também para lanchar, deitando-se entre as raízes de um carvalho frondoso que pontuava a paisagem e degustando a sombra de um raminho de folhas aquecidas “al dente” pelo primeiro sol da Primavera.
Mas, ao contrário do que seria desejável, uma alcateia de adjectivos com cio e alguns advérbios mal encarados, irromperam os trambolhões pelo prado, provocando alvoroço e duvida nas restantes palavras, erguendo no ar poeira e ansiedade.
Fica para a próxima, disse o poeta por fim, abandonando o seu rebanho à natureza e lamentando não ter ali uns bons verbos para manter a ordem.
(Abandonou o seu rebanho porque podia e porque, afinal, não tem que prestar contas a ninguém…)

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2004/03/10

Socorro!... Rápido, é agora que tenho de escrever o mais belo poema de todos os tempos, porra!, 

disse o poeta mal abriu os olhos, emergindo esbaforido do sonho, ainda com resíduos viscosos na cara, braços e ombros. Estivera a sonhar consigo próprio a aperceber-se da sua própria singularidade e da fragilidade da sua identidade, dotada de absoluta permeabilidade à relatividade da fronteira entre a mediocridade e genialidade... Sentado ao balcão de um bar. Ficou tão enjoado que teve de acordar para se livrar desta repetição viciosa. Era urgente alinhar palavras redentoras e, de preferência, isentas de rima.
Mas, ao contrário do que seria desejável, e apesar do sol espreitar, muito curioso, pelos orifícios da persiana, o conforto da caminha quente e o facto de ainda só serem 7.45 da manhã concederam-lhe uma repentina e amorável esperança.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, aconchegando-se melhor e virando-se para o outro lado.
E deixou-se adormecer até às 8.00H. (Deixou-se adormecer até às oito porque podia e porque só então tocaria o despertador…)


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2004/02/19

Palavra para hoje:Nada. 

Nada...
Todos: Na... da...
Nada....
Nada...
Na?...
Da...
Nada...
Naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa... da...
(suspiro)

Ok, podem sair...

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2004/02/18

O último 

Presidente da República com bigode que tivemos foi o Carmona. Já lá vão uns anos...
E uma democracia sem bigode...
Mas agora reparo: quantos Primeiros-Ministros com bigode tivemos desde o 25 de Abril?... Vergonha!...
Como é que este país há-de ir para a frente?...

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2004/02/13

É agora, de hoje não passa! É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos,  


disse o poeta, pousando os talheres e degustando o último pedaço da deliciosa tarte de maçã com canela com que rematou aquele fecundo jantar. Do topo da mesa, para lá da garrafa vazia do tinto loquaz e pertinente que lhe fez companhia, conseguia ver agora o mundo inteiro, plano e linear, como sempre devia ser, e sob céu limpo.
Mas, ao contrário do que seria desejável, no desatar urgente do nó dialéctico enunciado pela fórmula cafezinho/cigarro, o seu olhar foi capturado pelos raios coloridos do televisor, em concreto pelas transbordantes maminhas de uma modesta actriz de telenovela, que soletrava emoções primárias com intensa actividade pulmonar.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, recostando-se no sofá. E aninhou-se no colo de um entorpecimento morno e aparentemente inofensivo, com maminhas transbordantes por almofada e cores quentes e rápidas a bailarem-lhe na cara. (Aninhou-se no colo de um entorpecimento morno porque podia, e sorte teve ele, quem me dera a mim! …)

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2004/02/04

- O que é que tens? 

- Não tenho nada...
- Nada?...
- Nadinha...
- Mesmo nada, nada, nada?...
- Nada...
- Não fiques assim... Isso há-de passar...

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2004/01/30

"Em que pé está o mais belo poema de todos os tempos?"... 

pergunta uma "deslocada" espectadora deste blog.

Queres ver que tenho andado à procura no sítio errado?...
A verdade é que, como sempre que leio um belo poema, fico interrompido quando vejo um belo pé...

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2004/01/28

Palavra para hoje: Tibieza 

Ti... vá lá, todos: Ti... bi... e... za...
Tibiezzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzza...
Tib... ieza...
TibiezÁ...
TÍbieza...
Tibiêêêêêêê.... zzzzzzzz... a...

Ok, podem sair...

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2004/01/25

É agora, pronto! Raismeparta se não é agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos,  

disse o poeta, cravando o seu corpo na cadeira, em frente à escrivaninha, puxando para si a folha branca, descobrindo o bico à caneta, vibrando de temerária determinação e incontida coragem.
Mas, ao contrário do que seria desejável, o entusiasmo foi tanto que se despistou logo na primeira curva, estilhaçando a barreira do agora, batendo de frente numa decepção, rebentando-se-lhe uma sinapse - que se desfez em melancolia - e quase capotando.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, acendendo um cigarro. Aspirou profundamente e soprou-se a si próprio para o ar. (Soprou-se a si próprio para o ar porque podia, quase que aposto…)


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2004/01/20

Conto erótico: 

"A TUA VERGA HERÉTICA!..."

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2004/01/18

Hoje dei com o meu bigode todo desgrenhado e aflito. 

Até me doeu.
Mas o facto de imediatamente ter percebido que, querendo, não adiantaria nada tentar penteá-lo e cofiá-lo na imagem reflectida no espelho - mas sim no bigode em si, no lado de cá - animou-me muito.
Epá!...
É a consciência de ser capaz de formular raciocínios geniais como este que me dão a confiança para enfrentar o dia a dia.

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2004/01/13

Palavra para hoje: Transformação 

Todos: TRANS...
FOR...
MA...
ÇÃO...
Isso, vá lá, todos: Trans, trans, trans, trans for, for, for, for, ma, ma, ma, ção, ção...
isso...
Outra vez, em crescendo: transForMA ÇÃÃÃÃÃÃÃÃOOOO!...
Boa...
Agora expirando, deitando todo o ar cá para fora: Transformaççççççççççççççççççççao...
Muito bem...

Ok, podem sair...

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2004/01/12

É agora! É agora, rápido! É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, avançando pela escadaria, em voo rasante sobre os degraus, galgando andares, rodopiando pelo interior do prédio, aspirado pela força sublime do primeiro verso que lhe fisgara o peito e lhe exigia um papel e uma caneta.
Mas, ao contrário do que seria desejável, chegado à porta de sua casa, deu pela falta das chaves, que ficaram esquecidas no porta-luvas do carro.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, praguejando, fulminado pelo peso do próprio corpo, ofegante e dorido, que o atirou contra um chão de mármore e mediocridade. E meteu-se no elevador, voltando à rua. (Meteu-se no elevador porque podia, claro. Pelo que paga de condomínio, mal pareceria!...)

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2004/01/08

Palavra para hoje: Humilhação 

Todos: Humi... Humi;
Isso, vá lá, todos: Humiiiiiii, lhaaaaa, ção...
isso...
Outra vez, forte: HUMILHAÇÃO...
Já chega... Podem parar...

Saiam....

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2004/01/05

LINGUAGEM 

- Certo dia à noite, estava eu a co...
- Quê?
- Quê o quê?
- Certo dia à noite? Que raio de frase é essa, certo dia à noite?
- Certo dia... à noite. Era um dia determinado, mas à noite...
- Então, ou dizes “certo dia" ou “certa noite”, não vais dizer certo dia à noite, isso é parvo, não tem lógica e é ridículo!...
- Calma...
- É mau português...
- E se tivesse sido de manhã?
- Não interessa se foi à noite ou...
- Certo dia de manhã... Também está mal?
- Está...
- Não está...
- Está... Dirias “certo dia” ou “certa manhã”... E não certo dia de manhã... isso é um português parvo e...
- Deixas-me contar a história ou não, porra?
- Não...
- Por que não?...
- Porque não suporto ver-te feliz!
- O quê? Que raio de português é esse? Não suportas ver-me feliz?
- Não...
- Não suportas ver-me feliz? Isso é parvo, não tem lógica, é ridículo!...
- Calma...
- É mau português...
- Não é não senhor!... É maldade, pura e simples!...
- Sem dúvida!...E eu que nem sequer estou feliz... Aliás, a história que te quero contar até é triste...
- Ah, então conta...
- ...
- Conta...
- Bom, certo dia à noi... certa noite, estava eu a comer...
- A jantar ...
- A jantar... a comer. Pode-se dizer comer. Estava a comer...
- Tens a certeza de que essa história é triste?...
- Tu não estás bem, pois não?
- Não.
- O que é que se passa, diz lá?
- Por que dizes “o que é que se passa” e não “o que se passa”? É mais simples, mais limpo, mais...
- Estás doente?
- Não...
- Problemas no emprego? Gajas?
- Estou desolado...
- Desolado?...Desolado?...
- Sim. Estou consciente, lúcido como nunca estive, sinto-me... despejado...
- Despejado?
- Sim...
- Não estou a perceber nada...
- Descobri uma coisa trágica. Apercebi-me de uma verdade inelutável...
- Uma verdade inelu... boa palavra!
- Não brinques...
- Não estou a brincar, diz lá então qual é essa verdade intleu... inilu...
- Inelutável.
- Isso...
- DESCOBRI QUE NUNCA VIREI A SER O QUE SEMPRE SONHEI VIR A SER UM DIA...
- Ena! É isso a coisa intleu... ine...
- É.
- Porque o disseste em maiúsculas?
- Maiúsculas? Eu não disse em maiúsculas...
- Pareceu-me. E o que vais fazer agora?...
- Não sei...
- Bom, não te quero desapontar, mas... Isso não me parece ser uma grande descoberta. Muito menos uma descoberta trágica...
- Cala-te.
- Não, a sério! Isso também eu já descobri de mim, e toda a gente descobre mais tarde ou mais...
- Cala-te!
- Então... Mas é verdade...
- Não quero saber o que pensas. Não quero saber a tua opinião, nem quero amenizar esta duríssima verdade que me varou o peito e me feriu de morte...
- Perdão?
- Que me varou de morte... Que me varou o... Que me varou o peito e me feriu de morte...
- Lindo. Podes não estar feliz mas as palavras estão a escolher-te muito bem...
- As palavras é que me estão a escolher?...
- Sim... É uma figura de estilo....
- Cala-te com as figuras de estilo. Odeio-as! Não quero que as manhas da linguagem escamoteiam este meu estado de completa desolação.
- Mas estás completamente desolado?
- SE TE ESTOU A DIZER QUE SIM, PORRA!
- Não precisas usar maiúsculas comigo!
- Desculpa...
- Quero ajudar-te...
- Como? Com conversa? O paleio só serve para nos ludibriarmos, não resolve nada... Prefiro um sentimento puro, como o que sinto agora, a qualquer sentimento postiço.
- Pois, pois. Tenho a certeza que essa verdade inetlu... initli...
- Inelutável...
- Isso... não sobreviria a uma conversa franca.
- Cala-te! Deixa-me estar...
- Qual é o mal?
- DEIXA-ME EM PAZ!
- Posso ao menos contar-te a história. É triste, prometo...
- NÃO, AGORA JÁ NÃO QUERO!...
- Tu não me uses maiúsculas, pá!... Eu chateio-me!
- Desculpa... Deixa-me estar cá consciente, lúcido como nunca, despejado...
- Desolado...
- Ou isso...
- Ao menos bebe mais um copo...
- Prometes ficar calado?...
- Não.

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2003/12/29

- Deixa-me fotografar-te nua... 

- Tem masé juízo!...
- Deixa lá...
- Sai, deixa-me em paz...
- Oh deixa...
- Não...
- Oh deixa...
- Não...
- Deixa lá...
- Não, porra!...
- Deixa...
- NÃÃOO!!...
- Oh deixa...
- Chato!...
- Deixa...
- NÃO!
- Deixa...
- Meeeelga!...
- Só uma...
- Não! Já disse que não e não é não! Porra!...
- Oh... Deixa...
- Ok, está bem. Mas só uma!... Chato!...
- A sério?
- Sim. Vá lá.
- A sério?...
- Como é que queres fazer? Vamos para o quarto?...
- Deixas, a sério?
- Sim. Vamos para o quarto ou preferes aqui.
- Não acredito...
- Tens é de correr as cortinas...
- Tás a brincar!
- Brincar? Não penses que me dispo com as cortinas escancaradas...
- Deixas mesmo?...
- Queres ou não queres fotografar-me?
- Não acredito...
- Oh!...
- Deixas, a sério?...

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2003/12/16

É agora! É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, ofegante, a voz abafada pela gola erguida da gabardina, avançando no seu encalço com passos vigorosos, através do universo cinzento e rugoso das pedras da calçada, seguindo-lhe o rasto fresco, adivinhando-o já.
Mas, ao contrário do que seria desejável, o presente barrou-lhe o caminho, a poucos metros da cauda do primeiro verso, que logo dobrou a esquina, escapando.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, resignando-se, pregado ao chão. E deixou-se ali quieto, a recuperar o fôlego, recusando-se a voltar para trás. (Deixou-se ali quieto porque podia, claro. E estava com falta de ar...)


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2003/12/03

Palavra para hoje: Patético 

Todos: Paté, paté;
vá lá, todos: Patééééééééé... té, té, té, té, té, té, té ...
isso...
Agora: tico, tico, tico, tico, tico, tico, tico, tico, tico, tico....
Mais rápido: ticoticoticoticoticoticotioctioctico...
Boa...
Outra vez, forte: PATÉTICO...
Sonoro: PAAAAAAAAA TÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ TIIIIIIIIIII COOOOOOOOOO...
Muito bem...
Agora como se a palavra fosse grave: patetico, pateTIIIIIco...

Ok, podem sair....

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2003/12/02

Mas posso sempre contar com os meus substantivos bigodes. 

Autênticas vírgulas de personalidade.

(importa-se de repetir?...)

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2003/11/25

Vai ser agora. É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos,  

disse o poeta, apavorado, encolhendo-se na cadeira, desviando inconscientemente o olhar da escrivaninha, da folha branca, da caneta, que o aguardavam com disponibilidade total. O próprio poema já lá estava, calado, latejando nos músculos, doendo, era só colhe-lo com precisão e despejá-lo por ordem no papel, houvesse fôlego para tal e não lhe tremessem as mãos.
Mas, ao contrário do que seria desejável, (ou tal vez não) uma urgência do quotidiano correu em seu auxílio e a oportunidade de um telefonema surgiu. Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, aliviado, digitando o número num afã. E deixou-se resgatar pelo sinal de chamada e pela voz que o acolheu e o aconchegou numa imensa banalidade qualquer. (Deixou-se resgatar porque podia, felizmente... Livra!...)

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2003/11/17

Há demasiadas palavras, sempre o disse... 

E a verdade é que escrevo muito melhor sem elas.
Para poemas de amor é fazer o obséquio de mos ler na boca.

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Palavra para hoje: Impotência. 

Todos: Impo, impo;
vá lá, todos: Impooooooooooooo...
tên, tên, tên, tên, tên, tên, tên...
isso...
Agora: cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia....
Impotência, Impotência...
Outra vez: IMPOTÊNCIA...
IMMMMMMMMMPOOOOOOOOOTÊEÊÊÊNNCIIIIIIIAAAAA...
Outra vez: Impo.... isso...

Ok, podem sair....

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2003/11/13

Vai ter de ser! É agora! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, endireitando-se na cadeira, centrando a folha de papel na escrivaninha, pegando na caneta como num estilete, inspirando profundamente. O ar que lhe encheu o peito revelou-lhe que seria aquele o momento de fazer a incisão definitiva, rasgar as entranhas da folha, operar o milagre. Mas, ao contrário do que seria desejável, a expiração a que teve de se render a seguir foi um suspiro, que lhe despiu o desejo e lhe desarmou os ombros. Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, afastando a cadeira e levantando-se. Chegou-se à janela, que continha uma rua deserta, e decidiu fazer-lhe companhia até que a chuva chegasse. (E decidiu assim porque podia, de certeza...)

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2003/11/07

Palavra para hoje: Ingenuidade. 

Todos: Inge, inge;
vá lá, todos: Ingéééééééééé...
nuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
isso...
Agora: da, da, daaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa....
Agora, forte como uma interjeição: DE!... DE!...
Isso. Outra vez: DE!... Boa...
Tudo junto, agora: INGEEEENUIIIDAAADEEE...
Mais rápido: INGENUIDADE!
Outra vez: Calma!... Só quando eu disser: um... dois... trêINGENUIDADE!...
Boa...

Ok, podem sair....

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2003/11/03

Não me lembro de ter tido um sonho tão giro como o desta noite. 

Era a cores (technicolor), em ecran panorâmico e passava-se no tempo dos romanos. Metia quadrigas, cidades escavadas em montanhas, muralhas vigiadas por guardas armados de lanças e escudos. Segundo entendi, eu era uma espécie de Messias, o gajo que ia liderar uma revolução qualquer. Era protegido por um senhor de idade, vestido de forma andrajosa, como eu, que me escoltou até ao interior da cidadela.
Lembro-me que quase fomos descobertos por uma patrulha de romanos, mas conseguimos escondermo-nos numa vala. Logo a seguir quase fomos atropelados por uma quadriga puxada por quatro cavalos negros. Fiquei sem fôlego.
Lembro-me também de ter contabilizado alguns erros de continuidade na narrativa, que o espectador do sonho facilmente iria detectar, a saber: antes de entrar na cidadela, eu e o meu "guia-protector" fomos a um mercado e compramos dois peixes grandes; mas, na cena seguinte, já estamos dentro da cidadela e não trazemos os peixes connosco; noutra altura, estou eu dentro de um quarto, trocando a minha roupa encardida de suor e pó por uma túnica de alvo linho (se bem me lembro, foi na parte em que eu aguardava a visita de uma ninfa meio sagrada que me ia revelar, na cama ali ao pé, algo de muito interessante que tinha a ver com o voo de águias), quando reparo que a vista da janela é lindíssima (vastas colinas castanhas sob uma céu azul profundo), mas tem visíveis umas muito anacrónicas antenas metálicas da rede eléctrica de alta tensão.
Decidi que tinha de alertar o realizador do sonho para isso.
Depois acordei, com o despertador. Sem perceber o coiso do voo das águias.
Isto não é ficção, foi mesmo um sonho...

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2003/10/31

Ah!! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, pegando na caneta, endireitando-se na cadeira, etc., etc.
Mas, ao contrário do que seria desejável, o seu corpo desertou, etc., etc.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, e foi denunciá-lo, etc., etc. (Foi porque podia, etc., etc...)

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2003/10/30

Ontem  

ia na rua e dei com um colega que não via há muito. Cumprimentamo-nos, efusivos e alegremente surpreendidos. Mas logo lhe detectei, sobre tudo o mais, alguma reticência e perplexidade. Como eu as estranhasse, o colega sentiu-se na obrigação de explicar, algo embaraçado, que não esperava encontrar-me ali pois me tinha como morto. Constara-lhe que eu tinha batido a bota, esticado o pernil, ido desta para melhor, há já uns meses, num acidente brusco e trágico, uma coisa assim. Uma notícia que lhe provocou franco pesar, até porque eu era um tipo novo, com muita vida pela frente e etc. Eu achei aquilo deveras intrigante e adiantei a hipótese de tudo não passar de um mero boato, como muitos que por aí nascem. Ele aceitou essa probabilidade e fez votos sinceros para que assim fosse. Acrescentou, todavia, que nisto dos boatos ele nunca há fumo sem fogo. Concordei. Combinamos almoçar um desses dias e despedimo-nos pois estávamos ambos atrasados.

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2003/10/26

Agora é que vai ser! Agora é escrever o mais belo poema de todos os tempos 

disse o poeta, desligando o computador com um clic definitivo, afastando da escrivaninha o teclado e puxando para si o caderno. Sentia-se exausto, doridos os olhos, os ombros e a vontade.
"A gordura do salmão..."
Ao contrário do que seria desejável, foi tudo o que conseguiu raspar com a ponta da caneta na superfície gelada da folha. Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, desligando o caderno com um clic definitivo. E foi lavar a louça do almoço. (Foi porque a namorada lho exigia. E depois? Há azar?...)

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2003/10/25

Conto erótico: 

"Audaces fortuna juvat", rezou ele baixinho, enquanto lhe afastava a perna esquerda...

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2003/10/21

Menti... 

Há coisa de 5 minutos disse uma mentira...
Menti com os dentes todos, até me surpreendi a mim próprio. Mentira pura...
Agora olha... se tiver que ir para o inferno...
O gajo até é um tipo porreiro, vai causar-lhe transtorno...
Paciência... se tiver que ir para o inferno... olha...

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2003/10/20

É agora! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, pousando o copo de uísque no tampo da escrivaninha, cuidadosamente, ajustando com um rigor suposto a sua distância em relação à garrafa quase vazia. Sorria, todo o seu corpo vibrava e sorria, e a folha branca pairava no ar, radiante. Pegou na caneta e constatou, divertido, como pela primeira vez, a suavidade da sua textura, e ouviu nos dedos o palpitar frágil do seu coraçãozinho de tinta. Mas, ao contrário do que seria desejável, a caneta virou-se de lado, aconchegou-se melhor e adormeceu-lhe na mão.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, debruçando-se na escrivaninha, pousando a cabeça nos braços. Abrigou a caneta sob si, com ternura, e deixou-se levar pelo sono. (Deixou-se levar porque podia, claramente...)

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2003/10/15

Hoje não escreverei poema algum, 

disse o poeta enquanto se barbeava, suspendendo a lâmina a meio da face, esforçando-se para não fitar os seus olhos reflectidos no espelho. Depois de dois insuportáveis segundos de vida (da sua, nomeadamente), tomou fôlego e retomou o gesto, resignado. Reparou, entretanto, que o lavatório precisava de ser limpo.

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2003/10/10

Agora é que vai ser! Ah! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos dos tempos, 

disse o poeta, pegando na caneta, endireitando-se na cadeira, coçando a nuca num frenesim. Ainda trazia nos lábios um beijo da amada e nos braços o frémito do seu corpo nu. Sentia alegria suficiente para deslocar da órbita o globo terrestre inteiro, elevá-lo acima da cabeça e soltar um grito. Mas, ao contrário do que seria desejável, o eco de um suspiro da pele dela percorreu a casa e bateu-lhe ao de leve na face, ferindo-o com um sorriso.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, regressando ao quarto. E foi refugiar-se outra vez no segredo do colo dela. (Foi porque podia, obviamente, disso não há dúvidas...)

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2003/10/07

É agora! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos dos tempos, 

disse o poeta, pegando na caneta e endireitando-se na cadeira, muito entusiasmado. Tinha o sol nos olhos e tudo estava iluminado, resplandecendo em cores francas, o bico dourado da caneta prestes a formular magia em azul-marinho sobre o céu branco da folha. Mas, ao contrário do que seria desejável, uma nuvem cinzenta de saudades veio passando sob a escrivaninha.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, trepando para a nuvem. E foi passear pelas ruas da cidade, mãos nos bolsos. (Foi porque podia, naturalmente...)

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2003/09/30

Equívoco 

- Boa tarde.
- Sim?...
- Boa tarde...
- Boa tarde como?
- Boa tarde... Só boa tarde...
- Conheço-o de algum lado?
- Não. Estou só a cumprimentá-lo... Estamos aqui os dois neste jardim...
- Mas o que quer dizer com esse “boa tarde”...
- É um cumprimento... simples...
- O que é que você quer, diga lá?...
- Nada! Decidi cumprimentá-lo, só isso...
- Só me queria cumprimentar?...
- Sim... Desculpe...
- Mais nada...
- Mais nada...
- Bom, então está bem... É que não sou desses... Lá por estar aqui neste jardim...
- Desses? Desses de quais?
- Desses...
- Ah! Eu também não sou desses, esteja descansado... Eu...
- Não é?
- Não...
- Pensei...
- Mas não tenho nada contra...
- Contra o quê?
- Contra esses...
- Porque diz isso? Pensa que sou desses?
- Não, não, não, não... Não penso nada... Só estava...
- Ah!...
- Mas você pensa que eu sou? Um desses?...
- Não, não, não, não... Não penso nada... Só estava...
- Ah...
- Só estava...
- Claro...
- Claro?
- Como?...
- Nada, nada...
- Há algum problema?
- Não, não, não, não...
- Muito bem...
- Está aqui está a chover...
- É...
(continua)

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