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2003/07/30

- Sinto um vácuo... 

- Onde?
- Aqui dentro, na barriga. Sinto um vácuo... sinto um...
- Gazes?
- Não, um vácuo... Um vácuo, um enfado...
- Devem ser gazes...
- Não, é um vácuo. Um fastio que me oprime as entranhas e deixa um espaço vazio, uma ausência, uma...
- São gazes...
- ... saudade...
- Tens de ter mais cuidado com o que comes. Um problema de fibras. E tens de comer com mais calma, mastigar melhor a comida...
- Uma saudade malsã. Talvez a alma, o que quer que isso seja, se aloje aqui, na barriga... Tenho a alma inflamada...
- Alma inflamada?... Uma saudade?...
- Ou então são mesmo gazes...
- Sentes um vácuo?...
- Tenho de ter mais cuidado com a alimentação...

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2003/07/27

- Cuidado com as palavras escritas... 

- O quê?...
- Nada, nada... estava só...
- Repete lá... Cuidado com quê?...
- Nada...
- Cuidado com as palavras escritas? O que queres dizer com isso?...
- Nada, esquece...
- Diz lá...
- Oh...

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2003/07/25

- Ontem apeteceu-me chorar e não consegui... 

- Ah Ah Ah Ah Ah... Ih Ih...
- Estás a rir? Isto é sério...
- Desculpa... foi só... (ih ih ih) Desculpa...

- Não consegui... as lágrimas não... Não consegui chorar...
- (Pffff, ih ih ih...) Desculpa...

- Não se pode dizer nada!... Os homens também choram, sabes!...
- Eu sei, claro! Eu farto-me de chorar!... Desculpa... (ih ih ih ih...)
- Pára, Porra!
- Ok, desculpa... Foi sem querer... A frase é que...
- Oh!...

- (ih ih ih...pfffff...)
- PÁRA!

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Mas de cobras tenho medo 

Certo dia, não há muito, estive num sítio onde as havia avonde. Era no deserto (entra a música de fundo). Estava alojado numa tenda berbere, em Fort-Boujerif, jantara tanjine de camelo e afogara as saudades de cervejinha fresca com meia dúzia de Heinekens. O dia morria enfermo, tombando sobre as colinas ressequidas, envolto numa mortalha de névoa. Assisti, à distância nunca segura de 200 metros, à exibição de um tipo esquisito que se dizia encantador de serpentes e as trazia enroladas ao pescoço. O barman serviu-me mais umas Heinekens e disse que nos arredores não faltavam serpentes daquelas. Ele disse serpentes, não cobras. E isso inquietou-me ainda mais.
(fim de música, som directo: o vento a uivar fora da tenda, ruídos de corpos cansados) Nessa noite dormiria na enorme tenda, que nunca fecha por completo. O medo de receber visitas de serpentes fazia-me estremecer os gestos e os meus colegas comentavam alegremente essa hipótese, crendo-a longínqua. À cautela, coloquei a meu lado uma lanterna e (à falta de melhor) uma bota prontas a usar.
Perdi a batalha e adormeci. Várias vezes acordei, corpo tenso, mão presa na lanterna, olhos esgaçados a romper o breu em busca da causa de um pressentimento. Fui-me deixando convencer de que nada aconteceria. Até que de repente...
(música em crescendo) senti algo a roçar no saco-cama. Minimizei: seria impressão minha. Mas não! Não era! Estava algo a encostar-se a mim, sorrateiramente! Dei um salto (sons estridentes, cordas esticadas de violinos), com a lanterna enfrentei o diabo nos olhos, pronto a morrer ou a matar...

Era uma gatinha branca que tinha vindo aquecer-se, já a tinha visto antes a rondar a cozinha do restaurante...

Puta que a pariu, apanhou um biqueiro que até voou por cima do jipe!...

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2003/07/24

Dos bigodes 

É que não há nenhum Santo de bigodes!... Há santos com barba ou sem ela, mas não há nenhum que ampare sobre a sua carlotina um harmonioso jardim piloso. Aliás, não conheço nenhum padre que consiga segurar um bigode. Não é de admirar que a Igreja se vá afastando cada vez mais da população.

Um bigode é sempre uma declaração, genuína, pura, que irrompe de dentro de nós, sem subterfúgios e artifícios de retórica. Um pêlo é um pêlo. Uns bons bigodes constituem um marco, um sinal luminoso, uma presença, uma afirmação. Uma objecção de consciência.

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2003/07/23

FILOSOFIA 

- Água, não há nada melhor que um bom copo de água, límpida, pura, natural. Há gente que nem sabe como é bom beber um simples copo de água. Ter sede, estar com a boca e as entranhas ressequidas, depois de um esforço ou a meio de um dia quente, e beber um simples copo de boa água natural. Ahhh! Agua, não há nada melhor...
- Às vezes mijar também é bom...
- É. Mijar, uma boa mija, despejar a bexiga...
- Aquele alívio...
- Aquele alívio. Estar com uma vontade enorme e depois alcançar um urinol e...
- Ou uma arvore, ou qualquer coisa sossegada...
- Sim, qualquer coisa sossegada, tem de haver sossego. Urinar como se fosse a coisa mais importante do mundo, a única coisa que há a fazer, o sentido da vida...
- Estar meia hora ali a mijar, sem nos importarmos com mais nada, ali...
- Pois, ali, shhhhhhh... É bom... é muito bom... shhhh
- E sexo... sexo é bom...
- Sexo é mais complicado. Dá muito trabalho, é desgastante...
- Não gostas de sexo?
- Gosto. Mas é desgastante...
- Não gostas de uma boa queca?
- Gosto! Gosto! Não estou a dizer que não gosto! Mas dá trabalho. Implica mais que uma pessoa...
- Sim, tem que implicar mais que uma pessoa, se não...
- Claro. Mas é desgastante...
- Desgastante?
- Sim, quer dizer... Implica... Um tipo fica a transpirar, suja-se... Fica todo molhado, peganhento, desconfortável... E implica sempre outra pessoa... Que está ali ao lado, uma relação... uma relação, digamos...pessoal... Eu gosto de sexo, atenção! Não estou a dizer que não...
- Pois. O que eu mais gosto é aquele momento pós-acto sexual. Aquela dormência. Aquela sestazinha que apetece tirar...
- Ah, sim, sim, disso também gosto. Aquela sestazinha que apetece tirar, é bom, é...
- Eu durmo, sempre que posso ferro o galho. 5 minutinhos de deleite.
- Sim, isso é bom, aí concordo, aqueles 5 minutos de sesta são muito bons, é a melhor coisa que há. Abandonarmo-nos, absolutamente. É uma delícia.
- É. Também gosto de um bom copo de água.
- Isso...

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2003/07/22

Recordando Xánatos, parte III: 

“Há dias em que me sinto mais. Há dias em que me sinto mais.”
Eis, acabadinha de traduzir, mais uma frase de XÁNATOS (o filósofo grego, o radical do bigode, o arqui-rival de Sócrates). Mais uma preciosidade, uma lasca viva de filosofia renascida do passado, trazida até nós na concha das mãos do aturado grupo de arqueólogos do pensamento humano que o vem estudando e descobrindo. Atente-se à leveza poética e ao peso do significado. Um regalo. É sabedoria em filigrana.
E a prova de sua autenticidade está, desde logo, na repetição. Essa é uma particularidade dos registos dos pensamentos de Xánatos (sempre julgou, condescendente, que o problema do seu discípulo e secretário Ptolo, e causa das suas parvoíces, era a surdez, pelo que repetia sempre e pacientemente tudo o que lhe ditava. Mas Ptolo, aquele estúpido, escrevia tudo a dobrar...)
“Há dias em que me sinto mais. Há dias em que me sinto mais.” Sublime.
É óbvio que já há polémica. Estas coisas são assim. Há estudiosos que contestam o rigor da tradução, dizendo que houve uma troca de verbos. Em vez de “sentir” alegam que o vocábulo original deve ser traduzido para “sentar”. Devendo a frase ser: “Há dias em que me SENTO mais. Há dias em que me sento mais”. Balelas, simples balelas. Partindo daqui, já há até quem, maliciosamente, tente aferir considerações sobre a saúde do filósofo. Tudo vago e infundado. Inclusive, sabe-se que as hemorróidas só foram descobertas muito mais tarde, aquando da disseminação do caril.

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INT/NOITE/CASA DELA – QUARTO DE DORMIR.  

Ele e ela estão deitados na cama, acabaram de fazer sexo. Estão nus e descobertos. Ele está a fumar e tem na mão direita o cigarro e o controlo remoto da TV, com o que vai fazendo zapping. A mão esquerda está estendida pelo travesseiro. Ela está com a cabeça encostada ao peito dele, cabelos soltos, uma mão pousada na barriga peluda dele.
ELA (com o olhar fixo na mão pousada na barriga dele): Se fosses para o Sudão cortava os pulsos...
ELE (sem tirar os olhos da TV): Tens cada uma...
ELA: A sério, se fosses para o Sudão cortava os pulsos!...
ELE: Cortavas os pulsos? Se eu fosse para o Sudão cortavas os pulsos? E por que raio havias tu de fazer isso?
ELA: Ai eu cortava os pul...
ELE: Cortavas os pulsos? Tu às vezes vens com cada uma!...
ELA: Estava a brincar...
ELE: Não estavas a brincar, não senhor! Tu às vezes assustas-me, porra!...
ELA: Estava a brincar...
ELE (fazendo zapping) Cortar os pulsos, tss...
ELA (encostando o seu corpo ao dele): Estava a brincar... (encolhendo-se, sussurrando) Também não precisas de ser assim bruto... Eu estava a brincar...
ELE (suspirando de impaciência): Está bem, desculpa, eu também estava a brincar, desculpa...
ELA (voz tremida): Eu estava a brincar...
ELE: Eu sei, desculpa, eu também estava a brincar... Não fiques assim, vá lá...
ELA (após um silêncio, olhando-o debaixo para cima, voz insegura): Não vás para o Sudão, está bem, Zé?...
ELE (sem tirar os olhos da TV): Está bem, não vou para o Sudão. Em todo o caso o prazo das inscrições já terminou...
Ela volta a encostar a cabeça no seu peito, acariciando-lhe a barriga peluda. Ele tira uma valente passa no cigarro e continua a fazer zapping.

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RELIGIÃO 

"Foi ontem mesmo, estava numa esplanada em frente ao mar e ele disse assim: então, pá, o que é que contas? Eu perguntei, muito atrapalhado, quem fala, não imaginava que pudesse ser o mar, ele próprio, nunca fôramos apresentados oficialmente, nem somos muito próximos, água por água sempre preferi a do chuveiro. E então o mar disse-me que era mesmo ele. Que estava ali em frente à esplanada, a descansar, que perdoava a intromissão mas, como me via sorumbático, com o olhar fixado nele, decidira meter conversa. Eu disse que fizera muito bem e até pedi desculpa se acaso estaria a embaraçá-lo ou a ser indiscreto com esse meu olhar. Ele disse que não, que não, para eu estar à vontade. Chamei o empregado e pedi uma bebida e perguntei ao mar se lhe podia oferecer uma. Mas ele disse logo obrigado mas que não bebia (ou disse que me bebia, não percebi muito bem). Ninguém é perfeito, pensei eu. E depois ele disse pois é, e deixou cair uma onda preguiçosa na areia, como um suspiro. E eu bebi um gole de cerveja. Estávamos a agarrar esta melancolia quando o sol saiu de detrás de uma nuvem, amarelado, num rodar enjoado. O mar arrepelou-se por um instante e disse lá vem este panasca outra vez, filho da mãe, é todos os dias a mesma coisa. Percebi algum mau estar entre aquelas duas entidades maiores. E decidi ficar em silêncio, com a minha cerveja. E o sol foi vindo, sem passar cavaco a ninguém, e insinuou-se nas entranhas do mar. Um vento frio fez vibrar um ressentimento antigo e fez escurecer o mundo. Eu não disse mais nada, aquilo não era nada comigo. Não acha que fiz bem, sotôr?"

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2003/07/21

Recordando Xánatos, parte II (poste IV): 

Xánatos, o rival de Sócrates, o filósofo radical, o audaz grego do bigode, como era conhecido, o pai da filosofia futura, como virá, não tarda, a ficar conhecido (logo que acabem os trabalhos de estudo sobre o seu espólio recém-descoberto) estava sentado numa fraga, num olival quieto, sobranceiro a sua Atenas amada. O sol primaveril dormia a sesta, lá no alto, embalado pelo basqueiro entorpecedor que a bicharada se fartava de fazer na mata (ainda hoje é assim, até enerva!...). Xánatos balouçava um pauzito na mão e estendia o seu olhar até à mais longínqua vela náutica que vislumbrava, ou imaginava vislumbrar, no azul do mar de Esparta (que estes diziam de Atenas...). E Platão esperava. Sim, Platão, esse. O jovem Platão tentara entrar na tertúlia de Sócrates mas não lograra, já naquela altura havia o numerus clausus (dito em grego), pelo que recorrera à «luz» de outro sábio, um mais acessível, como Xánatos. (Esclareça-se que Xánatos era acessível no trato, mas não no pensamento. As pesquisas vêm apontando para um vanguardismo surpreendente, incomportável para os mais iluminados seus contemporâneos. Ou mesmo nossos...) E Platão esperava, já estava habituado, o curso já durava há uns meses. Perspicaz como ele achava ser, vinha achando que as secas que Xánatos lhe pregava todas as tardes, naquela fraga, naquele olival quieto, fariam parte, quiça, de um insondável ritual iniciático, uma preparação espiritual de acesso à revelação suprema. O sol, o mar, o basqueiro da bicharada, a fraga. E aquele bigode do mestre. Platão quase encontrou coragem para também cortar a barba e afirmar-se num bigode. Numa auto-mutilação filosófica (era assim que ele entendia o bigode do mestre. Mais tarde veio a trocar a palavra «filosófica» por «dialéctica», mas isso foi depois de uma rixa, num bar). O problema de Platão não era esperar. Era não ter ali uma fraga onde ele próprio se sentar. Era só arbustos e formigas, (naquela altura usava-se togas e coisas assim, os bicharocos metiam-se por todo o lado). De maneira que passava as tardes ali de pé. Xánatos a fazer balouçar o pauzito, aparentemente compenetrado, e ele de pé, olhando em volta. (Isto de balouçar o pauzito só poderá ser entendido com duplo sentido mais tarde, e só na vida de Platão, que Xánatos não era desses...). Mas aquela tarde seria diferente. A certa altura, o sol estremunhou e a bicharada calou-se, de repente. Subiu dos arbustos um silêncio sufocante. Platão ouviu o bater do próprio coração e uma pergunta fez-lhe estalar a língua. Disse: «Então mestre, e isso, vai andando ou quê?». Xánatos permaneceu imperturbável. Mas ao fim de uns segundos parou de balouçar o pauzito e disse, suspirando: «Hoje não estou nos meus dias...». Platão empalideceu, um suor frio inundou-o, a sua alma tombou sobre ele, sentiu-se afundar na terra, os seus pés a transbordar das sandálias novas. Aquela resposta deixou-o perplexo, arremessou-o contra a parede da sua própria ignorância, a sua incapacidade analítica, da sua mediocridade dedutiva, da sua pequenez humana. Platão, vexado, confuso, saiu do local a correr e nunca mais voltou. E Xánatos perdeu assim o seu discípulo mais conhecido. Continuou, todavia, a sua solitária odisseia filosófica. Platão, por sua vez, empregou-se numa empresa de fabricação de nós para a Marinha e depois voltou à filosofia (através da versão da época dos exames adhoc -dito em grego), tornando-se discípulo de Sócrates mas sem nunca evidenciar especial rasgo intelectual ou interesse histórico.

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Anedota genial, com instruções de utilização: 

Posicionar-se num ponto estratégico da sala, abrir os braços completamente e fazer uma careta a imitar uma águia pescadora. A seguir dizer: Estão duas águias PESCADORAS (frisar bem) a planar, lado a lado, no céu azul (a cor do céu é irrelevante, pode ser cinzento), e diz uma à outra: "Ontem pesquei um peixe deste tamanho..." Posto isto, deve-se manter os braços bem abertos e a careta a imitar uma águia pescadora até que a audiência ria. Manter os braços abertos até isso acontecer.


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Recordando Xánatos 

Isto tem tudo muito que se lhe diga. Já Xánatos, um ainda pouco estudado filósofo grego, contemporâneo de Sócrates (chegaram a morar na mesma rua e a frequentar as mesmas tertúlias, só que em mesas diferentes) fundou o seu pensamento revolucionário na decisão inédita, arrojada (suicida, dizem alguns biógrafos), de... rapar a barba. Sentiu que a sua teoria (foi naquele momento que ele percebeu que tinha uma) haveria de nascer de um acto, de um gesto, de uma movimento; daquilo que hoje costumamos chamar: atitude. De uma atitude demiurga (palavra esta que ele próprio esteve quase para inventar). E estava certo - a partir do momento em que rapou a barba todo um novo mundo conceptual se configurou, todo um conjunto de verdades insofismáveis se revelaram (aliás foi por isso que lhe vedaram, posteriormente, a entrada no clube dos sofistas, aqueles malucos). Mas porquê? O que é que um gesto aparentemente simples (mas profundamente rebelde - ao tempo, é sabido, a barba fazia parte da «indumentária» do nobre cidadão de Atenas), como rapar a barba tem de tão poderoso? É fácil: ele não rapou a barba, simplesmente (isso faziam os escravos, por imposição dos seus senhores e razões de higiene). A sua carlotina permaneceu até ao dia da sua morte um gracioso jardim, um verdadeiro palco para o seu espectacular... bigode. (...)
(Ex dono "Pastilhas")

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2003/07/14

primeiro poste 

"Hoje, depois de me barbear, contemplei-me ao espelho, qual Narciso enfeitiçado. E conclui: o meu bigode está maduro. Escorre-me da carlotina* numa amorosa ondulação, pousa-se delicadamente no lábio. Às pontas pedi malícia e orgulho e elas volteiam, com volúpia. O meu cofiar tornou-se sereno, uma simples carícia, uma vírgula.(...)"
(Ex dono "Pastilhas")


* "Carlotina" é um neologismo (palavra inventada no ano passado) que designa a parte da cara que vai do nariz ao lábio superior e que serve para cultivar bigodes.

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