<$BlogRSDUrl$>

2003/07/25

Mas de cobras tenho medo 

Certo dia, não há muito, estive num sítio onde as havia avonde. Era no deserto (entra a música de fundo). Estava alojado numa tenda berbere, em Fort-Boujerif, jantara tanjine de camelo e afogara as saudades de cervejinha fresca com meia dúzia de Heinekens. O dia morria enfermo, tombando sobre as colinas ressequidas, envolto numa mortalha de névoa. Assisti, à distância nunca segura de 200 metros, à exibição de um tipo esquisito que se dizia encantador de serpentes e as trazia enroladas ao pescoço. O barman serviu-me mais umas Heinekens e disse que nos arredores não faltavam serpentes daquelas. Ele disse serpentes, não cobras. E isso inquietou-me ainda mais.
(fim de música, som directo: o vento a uivar fora da tenda, ruídos de corpos cansados) Nessa noite dormiria na enorme tenda, que nunca fecha por completo. O medo de receber visitas de serpentes fazia-me estremecer os gestos e os meus colegas comentavam alegremente essa hipótese, crendo-a longínqua. À cautela, coloquei a meu lado uma lanterna e (à falta de melhor) uma bota prontas a usar.
Perdi a batalha e adormeci. Várias vezes acordei, corpo tenso, mão presa na lanterna, olhos esgaçados a romper o breu em busca da causa de um pressentimento. Fui-me deixando convencer de que nada aconteceria. Até que de repente...
(música em crescendo) senti algo a roçar no saco-cama. Minimizei: seria impressão minha. Mas não! Não era! Estava algo a encostar-se a mim, sorrateiramente! Dei um salto (sons estridentes, cordas esticadas de violinos), com a lanterna enfrentei o diabo nos olhos, pronto a morrer ou a matar...

Era uma gatinha branca que tinha vindo aquecer-se, já a tinha visto antes a rondar a cozinha do restaurante...

Puta que a pariu, apanhou um biqueiro que até voou por cima do jipe!...

Comments: Enviar um comentário

This page is powered by Blogger. Isn't yours?