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2003/07/21

Recordando Xánatos, parte II (poste IV): 

Xánatos, o rival de Sócrates, o filósofo radical, o audaz grego do bigode, como era conhecido, o pai da filosofia futura, como virá, não tarda, a ficar conhecido (logo que acabem os trabalhos de estudo sobre o seu espólio recém-descoberto) estava sentado numa fraga, num olival quieto, sobranceiro a sua Atenas amada. O sol primaveril dormia a sesta, lá no alto, embalado pelo basqueiro entorpecedor que a bicharada se fartava de fazer na mata (ainda hoje é assim, até enerva!...). Xánatos balouçava um pauzito na mão e estendia o seu olhar até à mais longínqua vela náutica que vislumbrava, ou imaginava vislumbrar, no azul do mar de Esparta (que estes diziam de Atenas...). E Platão esperava. Sim, Platão, esse. O jovem Platão tentara entrar na tertúlia de Sócrates mas não lograra, já naquela altura havia o numerus clausus (dito em grego), pelo que recorrera à «luz» de outro sábio, um mais acessível, como Xánatos. (Esclareça-se que Xánatos era acessível no trato, mas não no pensamento. As pesquisas vêm apontando para um vanguardismo surpreendente, incomportável para os mais iluminados seus contemporâneos. Ou mesmo nossos...) E Platão esperava, já estava habituado, o curso já durava há uns meses. Perspicaz como ele achava ser, vinha achando que as secas que Xánatos lhe pregava todas as tardes, naquela fraga, naquele olival quieto, fariam parte, quiça, de um insondável ritual iniciático, uma preparação espiritual de acesso à revelação suprema. O sol, o mar, o basqueiro da bicharada, a fraga. E aquele bigode do mestre. Platão quase encontrou coragem para também cortar a barba e afirmar-se num bigode. Numa auto-mutilação filosófica (era assim que ele entendia o bigode do mestre. Mais tarde veio a trocar a palavra «filosófica» por «dialéctica», mas isso foi depois de uma rixa, num bar). O problema de Platão não era esperar. Era não ter ali uma fraga onde ele próprio se sentar. Era só arbustos e formigas, (naquela altura usava-se togas e coisas assim, os bicharocos metiam-se por todo o lado). De maneira que passava as tardes ali de pé. Xánatos a fazer balouçar o pauzito, aparentemente compenetrado, e ele de pé, olhando em volta. (Isto de balouçar o pauzito só poderá ser entendido com duplo sentido mais tarde, e só na vida de Platão, que Xánatos não era desses...). Mas aquela tarde seria diferente. A certa altura, o sol estremunhou e a bicharada calou-se, de repente. Subiu dos arbustos um silêncio sufocante. Platão ouviu o bater do próprio coração e uma pergunta fez-lhe estalar a língua. Disse: «Então mestre, e isso, vai andando ou quê?». Xánatos permaneceu imperturbável. Mas ao fim de uns segundos parou de balouçar o pauzito e disse, suspirando: «Hoje não estou nos meus dias...». Platão empalideceu, um suor frio inundou-o, a sua alma tombou sobre ele, sentiu-se afundar na terra, os seus pés a transbordar das sandálias novas. Aquela resposta deixou-o perplexo, arremessou-o contra a parede da sua própria ignorância, a sua incapacidade analítica, da sua mediocridade dedutiva, da sua pequenez humana. Platão, vexado, confuso, saiu do local a correr e nunca mais voltou. E Xánatos perdeu assim o seu discípulo mais conhecido. Continuou, todavia, a sua solitária odisseia filosófica. Platão, por sua vez, empregou-se numa empresa de fabricação de nós para a Marinha e depois voltou à filosofia (através da versão da época dos exames adhoc -dito em grego), tornando-se discípulo de Sócrates mas sem nunca evidenciar especial rasgo intelectual ou interesse histórico.

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