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2003/07/22

RELIGIÃO 

"Foi ontem mesmo, estava numa esplanada em frente ao mar e ele disse assim: então, pá, o que é que contas? Eu perguntei, muito atrapalhado, quem fala, não imaginava que pudesse ser o mar, ele próprio, nunca fôramos apresentados oficialmente, nem somos muito próximos, água por água sempre preferi a do chuveiro. E então o mar disse-me que era mesmo ele. Que estava ali em frente à esplanada, a descansar, que perdoava a intromissão mas, como me via sorumbático, com o olhar fixado nele, decidira meter conversa. Eu disse que fizera muito bem e até pedi desculpa se acaso estaria a embaraçá-lo ou a ser indiscreto com esse meu olhar. Ele disse que não, que não, para eu estar à vontade. Chamei o empregado e pedi uma bebida e perguntei ao mar se lhe podia oferecer uma. Mas ele disse logo obrigado mas que não bebia (ou disse que me bebia, não percebi muito bem). Ninguém é perfeito, pensei eu. E depois ele disse pois é, e deixou cair uma onda preguiçosa na areia, como um suspiro. E eu bebi um gole de cerveja. Estávamos a agarrar esta melancolia quando o sol saiu de detrás de uma nuvem, amarelado, num rodar enjoado. O mar arrepelou-se por um instante e disse lá vem este panasca outra vez, filho da mãe, é todos os dias a mesma coisa. Percebi algum mau estar entre aquelas duas entidades maiores. E decidi ficar em silêncio, com a minha cerveja. E o sol foi vindo, sem passar cavaco a ninguém, e insinuou-se nas entranhas do mar. Um vento frio fez vibrar um ressentimento antigo e fez escurecer o mundo. Eu não disse mais nada, aquilo não era nada comigo. Não acha que fiz bem, sotôr?"

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