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2003/09/30

Equívoco 

- Boa tarde.
- Sim?...
- Boa tarde...
- Boa tarde como?
- Boa tarde... Só boa tarde...
- Conheço-o de algum lado?
- Não. Estou só a cumprimentá-lo... Estamos aqui os dois neste jardim...
- Mas o que quer dizer com esse “boa tarde”...
- É um cumprimento... simples...
- O que é que você quer, diga lá?...
- Nada! Decidi cumprimentá-lo, só isso...
- Só me queria cumprimentar?...
- Sim... Desculpe...
- Mais nada...
- Mais nada...
- Bom, então está bem... É que não sou desses... Lá por estar aqui neste jardim...
- Desses? Desses de quais?
- Desses...
- Ah! Eu também não sou desses, esteja descansado... Eu...
- Não é?
- Não...
- Pensei...
- Mas não tenho nada contra...
- Contra o quê?
- Contra esses...
- Porque diz isso? Pensa que sou desses?
- Não, não, não, não... Não penso nada... Só estava...
- Ah!...
- Mas você pensa que eu sou? Um desses?...
- Não, não, não, não... Não penso nada... Só estava...
- Ah...
- Só estava...
- Claro...
- Claro?
- Como?...
- Nada, nada...
- Há algum problema?
- Não, não, não, não...
- Muito bem...
- Está aqui está a chover...
- É...
(continua)

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2003/09/28

Ah! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos dos tempos, 

disse o poeta, pegando na caneta e endireitando-se na cadeira, muito entusiasmado. As sombras estavam presas à luz imóvel do candeeiro, delas não viria traição, uma noite deserta colara-se à janela, as coisas do escritório consentiram num silêncio circunspecto, a folha branca reluzia e o bico da caneta estava carregado. Mas, ao contrário do que seria desejável, o seu estômago estalou e uma vontade de comer pastéis de nata brotou-lhe na boca. Pastéis de nata quentinhos, fumegantes, com canela.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim. E foi até uma pastelaria que abre de madrugada, não muito longe dali. (Foi porque podia, claro).

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2003/09/27

- E qual é a sua filosofia de vida? 

- A minha filosofia de vida?...
- Sim...
- A minha filosofia de vida?...
- Sim...
- Qual é a sua?...
- Perguntei primeiro...
- A minha filosofia de vida?...
- Sim...
- ...
- Qual é a sua filosofia de vida?...
- Sim, já percebi a pergunta!... A minha filosofia de vida...
- Sim...
- Ora...
- Amor? Será o amor a sua filosofia de vida?
- Sim, é... É isso... Não...
- Não?...
- Hum...
- Qual é a sua filosofia de vida?
- Já percebi a pergunta, porra!...
- E então?... Fazer o bem?...
- Sim... Não!...
- Sim ou não?
- Não...
- Então qual é a sua filosofia de vida?
- Respirar...
- Respirar?...
- Sim...
- Só isso?...
- Sim... Não!...
- Não?...
- Não...
- Então?...
- Respirar bem...
- Só isso?...
- Hum...

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- Está lá?... 

- É engano...
- Está lá?...
- É engano...
- Quem fala?...
- É engano...
- É engano? Como é que sabe que é engano?...
- ...
- Estou?!...
- É engano, vou desligar...
- Quem fala?... Quem decide se é engano ou não sou eu... Quem fala?...
- ...
- Estou?!...
- É engano...
- Não é nada engano!...
- É...
- Não é nada!...
- É...
- Não é na...
(clic)

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2003/09/21

Reencontrei uma caneta de tinta permanente Pelikan que já não via há anos.  

Há muitos anos mesmo – coisa de oito, nove anos. Esteve este tempo todo, ao que parece, exilada no meio de uma papelada amontoada ao canto de um armário.

Sempre me intrigou o seu desaparecimento. Cheguei pensar que algum invejoso a tivesse surripiado. Quando a comprei (e foi cara), o combinado era ela passar a guiar-me a mão pelas planícies agrestes das folhas brancas, fazendo-me chegar às histórias que é meu imperioso mister contar, ensinando-me a recolher dos elementos as palavras essenciais. É uma caneta que me inspira confiança, tem um bico fino que rosna às páginas, mantém-nas em respeito. Todavia, mal a comprei, mal adaptei a mão ao seu temperamento, resolveu partir. Para aquele canto do armário, para o meio de papelada esquecida.

Estou feliz. E sou tentado a acreditar que este reencontro é parte do nosso acordo. Que aparecer agora é parte do plano traçado pela caneta.

(Imediatamente me apercebi também do respeito que cultivo pelo estado natural das coisas: se aquele monte de papéis ali ficou durante anos, intocável, foi por razões que instintivamente aceitei e acreditei serem perfeitamente legítimas. O que vale também para o critério seguido pelas partículas de pó ao tomarem o local. Não fosse a intervenção de uma terceira pessoa, movida por intenções marcadamente higiénicas, que também não questiono, a caneta manter-se-ia ali exilada, para sempre. Ora, isto leva-me a questionar: será que tenho uma indomável disposição para o fatalismo?).


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2003/09/19

Doi-me o teu corpo... 

- Não.
- Não?
- Negativo.
- Pensei que sim...
- Mas não...
- Desculpa...
- Não tem mal...

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Matar o tempo sempre me pareceu uma óptima ideia... 


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2003/09/18

- Uma vez conheci uma mulher de corpo enclausurado... 

- Ai sim?...
- De corpo hermeticamente enclausurado...
- Hermeticamente enclausurado?...
- Sim...
- O que é que essa merda quer dizer, pá?...
- Tinha o corpo enclausurado...
- Não tinha nada...
- Tinha, sim senhor!... Enclausurado é uma maneira de dizer...
- Bebes mais uma cerveja?
- Pode ser...
- Ó faxabore, era mais duas cervejas!...
- É uma figura de estilo, uma metáfora...
- Tinha o corpo enclausurado o caraças, é que tinha o corpo enclausurado!...
- Não... quer dizer... é uma... A mulher tinha o corpo...
- E de resto? A coisa vai ou quê?
- Vai andando, nunca pior... Faz é calor...
- É, isso é!...

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2003/09/16

Agora vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, pegando na caneta e endireitando-se na cadeira. Mas, ao contrário do que seria desejável, a sua sombra muda, que o sol projectava sobre o papel branco, foi deslizando, tombou da escrivaninha e estatelou-se no solo. Fica para a próxima, disse o poeta, por fim. E foi jantar (porque podia).

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2003/09/07

- Ping ling xing? – disse-lhe eu, com um sorriso amistoso nos lábios. 

- Xuag ting puong zu – retorquiu ela, com ar desafiador.
Mas era legítima a minha dúvida – ela fitava-me com insistência e eu, por muito tímido que seja, não podia deixar de reagir.
Ela voltou a pousar os olhos no livro, uma biografia de Fellini que por acaso já li há uns anos, e eu, já embaraçado, optei por dedicar-me de novo ao meu jornal, procurando evitar dar relevância ao incidente.
Mas não passou um minuto e lá estavam os seus olhos negros como um mar nocturno, cravados na minha cara.
- Ping ling xuang duo!... voltei eu, sorrindo ainda mas sem levantar os olhos do jornal.
Ela riu e, no seu sotaque cerrado de Pequim, com ironia a bailar-lhe nos lábios de rosa, disse:
- Xuong duo xingtaiu xuang duo...
Estremeci, corei (tenho quase a certeza de que corei) e deixei-me deslizar até mergulhar todo nas águas dos seus olhos. Apeteceu-me estender o braço e tocar-lhe na mão.
Uma hospedeira passou no corredor, entre nós, com o seu corpo opaco que me afastou da chinesinha durante a eternidade de uma fracção de segundo. Quando a voltei a ver era já outra pessoa. Lia o livro como se nada tivesse acontecido e eu senti que algo se quebrara dentro de mim.
Não falamos mais durante o resto da viagem.

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