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2003/09/07

- Ping ling xing? – disse-lhe eu, com um sorriso amistoso nos lábios. 

- Xuag ting puong zu – retorquiu ela, com ar desafiador.
Mas era legítima a minha dúvida – ela fitava-me com insistência e eu, por muito tímido que seja, não podia deixar de reagir.
Ela voltou a pousar os olhos no livro, uma biografia de Fellini que por acaso já li há uns anos, e eu, já embaraçado, optei por dedicar-me de novo ao meu jornal, procurando evitar dar relevância ao incidente.
Mas não passou um minuto e lá estavam os seus olhos negros como um mar nocturno, cravados na minha cara.
- Ping ling xuang duo!... voltei eu, sorrindo ainda mas sem levantar os olhos do jornal.
Ela riu e, no seu sotaque cerrado de Pequim, com ironia a bailar-lhe nos lábios de rosa, disse:
- Xuong duo xingtaiu xuang duo...
Estremeci, corei (tenho quase a certeza de que corei) e deixei-me deslizar até mergulhar todo nas águas dos seus olhos. Apeteceu-me estender o braço e tocar-lhe na mão.
Uma hospedeira passou no corredor, entre nós, com o seu corpo opaco que me afastou da chinesinha durante a eternidade de uma fracção de segundo. Quando a voltei a ver era já outra pessoa. Lia o livro como se nada tivesse acontecido e eu senti que algo se quebrara dentro de mim.
Não falamos mais durante o resto da viagem.

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