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2003/09/21

Reencontrei uma caneta de tinta permanente Pelikan que já não via há anos.  

Há muitos anos mesmo – coisa de oito, nove anos. Esteve este tempo todo, ao que parece, exilada no meio de uma papelada amontoada ao canto de um armário.

Sempre me intrigou o seu desaparecimento. Cheguei pensar que algum invejoso a tivesse surripiado. Quando a comprei (e foi cara), o combinado era ela passar a guiar-me a mão pelas planícies agrestes das folhas brancas, fazendo-me chegar às histórias que é meu imperioso mister contar, ensinando-me a recolher dos elementos as palavras essenciais. É uma caneta que me inspira confiança, tem um bico fino que rosna às páginas, mantém-nas em respeito. Todavia, mal a comprei, mal adaptei a mão ao seu temperamento, resolveu partir. Para aquele canto do armário, para o meio de papelada esquecida.

Estou feliz. E sou tentado a acreditar que este reencontro é parte do nosso acordo. Que aparecer agora é parte do plano traçado pela caneta.

(Imediatamente me apercebi também do respeito que cultivo pelo estado natural das coisas: se aquele monte de papéis ali ficou durante anos, intocável, foi por razões que instintivamente aceitei e acreditei serem perfeitamente legítimas. O que vale também para o critério seguido pelas partículas de pó ao tomarem o local. Não fosse a intervenção de uma terceira pessoa, movida por intenções marcadamente higiénicas, que também não questiono, a caneta manter-se-ia ali exilada, para sempre. Ora, isto leva-me a questionar: será que tenho uma indomável disposição para o fatalismo?).


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