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2003/10/31

Ah!! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, pegando na caneta, endireitando-se na cadeira, etc., etc.
Mas, ao contrário do que seria desejável, o seu corpo desertou, etc., etc.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, e foi denunciá-lo, etc., etc. (Foi porque podia, etc., etc...)

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2003/10/30

Ontem  

ia na rua e dei com um colega que não via há muito. Cumprimentamo-nos, efusivos e alegremente surpreendidos. Mas logo lhe detectei, sobre tudo o mais, alguma reticência e perplexidade. Como eu as estranhasse, o colega sentiu-se na obrigação de explicar, algo embaraçado, que não esperava encontrar-me ali pois me tinha como morto. Constara-lhe que eu tinha batido a bota, esticado o pernil, ido desta para melhor, há já uns meses, num acidente brusco e trágico, uma coisa assim. Uma notícia que lhe provocou franco pesar, até porque eu era um tipo novo, com muita vida pela frente e etc. Eu achei aquilo deveras intrigante e adiantei a hipótese de tudo não passar de um mero boato, como muitos que por aí nascem. Ele aceitou essa probabilidade e fez votos sinceros para que assim fosse. Acrescentou, todavia, que nisto dos boatos ele nunca há fumo sem fogo. Concordei. Combinamos almoçar um desses dias e despedimo-nos pois estávamos ambos atrasados.

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2003/10/26

Agora é que vai ser! Agora é escrever o mais belo poema de todos os tempos 

disse o poeta, desligando o computador com um clic definitivo, afastando da escrivaninha o teclado e puxando para si o caderno. Sentia-se exausto, doridos os olhos, os ombros e a vontade.
"A gordura do salmão..."
Ao contrário do que seria desejável, foi tudo o que conseguiu raspar com a ponta da caneta na superfície gelada da folha. Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, desligando o caderno com um clic definitivo. E foi lavar a louça do almoço. (Foi porque a namorada lho exigia. E depois? Há azar?...)

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2003/10/25

Conto erótico: 

"Audaces fortuna juvat", rezou ele baixinho, enquanto lhe afastava a perna esquerda...

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2003/10/21

Menti... 

Há coisa de 5 minutos disse uma mentira...
Menti com os dentes todos, até me surpreendi a mim próprio. Mentira pura...
Agora olha... se tiver que ir para o inferno...
O gajo até é um tipo porreiro, vai causar-lhe transtorno...
Paciência... se tiver que ir para o inferno... olha...

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2003/10/20

É agora! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, pousando o copo de uísque no tampo da escrivaninha, cuidadosamente, ajustando com um rigor suposto a sua distância em relação à garrafa quase vazia. Sorria, todo o seu corpo vibrava e sorria, e a folha branca pairava no ar, radiante. Pegou na caneta e constatou, divertido, como pela primeira vez, a suavidade da sua textura, e ouviu nos dedos o palpitar frágil do seu coraçãozinho de tinta. Mas, ao contrário do que seria desejável, a caneta virou-se de lado, aconchegou-se melhor e adormeceu-lhe na mão.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, debruçando-se na escrivaninha, pousando a cabeça nos braços. Abrigou a caneta sob si, com ternura, e deixou-se levar pelo sono. (Deixou-se levar porque podia, claramente...)

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2003/10/15

Hoje não escreverei poema algum, 

disse o poeta enquanto se barbeava, suspendendo a lâmina a meio da face, esforçando-se para não fitar os seus olhos reflectidos no espelho. Depois de dois insuportáveis segundos de vida (da sua, nomeadamente), tomou fôlego e retomou o gesto, resignado. Reparou, entretanto, que o lavatório precisava de ser limpo.

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2003/10/10

Agora é que vai ser! Ah! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos dos tempos, 

disse o poeta, pegando na caneta, endireitando-se na cadeira, coçando a nuca num frenesim. Ainda trazia nos lábios um beijo da amada e nos braços o frémito do seu corpo nu. Sentia alegria suficiente para deslocar da órbita o globo terrestre inteiro, elevá-lo acima da cabeça e soltar um grito. Mas, ao contrário do que seria desejável, o eco de um suspiro da pele dela percorreu a casa e bateu-lhe ao de leve na face, ferindo-o com um sorriso.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, regressando ao quarto. E foi refugiar-se outra vez no segredo do colo dela. (Foi porque podia, obviamente, disso não há dúvidas...)

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2003/10/07

É agora! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos dos tempos, 

disse o poeta, pegando na caneta e endireitando-se na cadeira, muito entusiasmado. Tinha o sol nos olhos e tudo estava iluminado, resplandecendo em cores francas, o bico dourado da caneta prestes a formular magia em azul-marinho sobre o céu branco da folha. Mas, ao contrário do que seria desejável, uma nuvem cinzenta de saudades veio passando sob a escrivaninha.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, trepando para a nuvem. E foi passear pelas ruas da cidade, mãos nos bolsos. (Foi porque podia, naturalmente...)

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