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2003/11/25

Vai ser agora. É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos,  

disse o poeta, apavorado, encolhendo-se na cadeira, desviando inconscientemente o olhar da escrivaninha, da folha branca, da caneta, que o aguardavam com disponibilidade total. O próprio poema já lá estava, calado, latejando nos músculos, doendo, era só colhe-lo com precisão e despejá-lo por ordem no papel, houvesse fôlego para tal e não lhe tremessem as mãos.
Mas, ao contrário do que seria desejável, (ou tal vez não) uma urgência do quotidiano correu em seu auxílio e a oportunidade de um telefonema surgiu. Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, aliviado, digitando o número num afã. E deixou-se resgatar pelo sinal de chamada e pela voz que o acolheu e o aconchegou numa imensa banalidade qualquer. (Deixou-se resgatar porque podia, felizmente... Livra!...)

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2003/11/17

Há demasiadas palavras, sempre o disse... 

E a verdade é que escrevo muito melhor sem elas.
Para poemas de amor é fazer o obséquio de mos ler na boca.

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Palavra para hoje: Impotência. 

Todos: Impo, impo;
vá lá, todos: Impooooooooooooo...
tên, tên, tên, tên, tên, tên, tên...
isso...
Agora: cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia, cia....
Impotência, Impotência...
Outra vez: IMPOTÊNCIA...
IMMMMMMMMMPOOOOOOOOOTÊEÊÊÊNNCIIIIIIIAAAAA...
Outra vez: Impo.... isso...

Ok, podem sair....

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2003/11/13

Vai ter de ser! É agora! Agora é que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta, endireitando-se na cadeira, centrando a folha de papel na escrivaninha, pegando na caneta como num estilete, inspirando profundamente. O ar que lhe encheu o peito revelou-lhe que seria aquele o momento de fazer a incisão definitiva, rasgar as entranhas da folha, operar o milagre. Mas, ao contrário do que seria desejável, a expiração a que teve de se render a seguir foi um suspiro, que lhe despiu o desejo e lhe desarmou os ombros. Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, afastando a cadeira e levantando-se. Chegou-se à janela, que continha uma rua deserta, e decidiu fazer-lhe companhia até que a chuva chegasse. (E decidiu assim porque podia, de certeza...)

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2003/11/07

Palavra para hoje: Ingenuidade. 

Todos: Inge, inge;
vá lá, todos: Ingéééééééééé...
nuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
isso...
Agora: da, da, daaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa....
Agora, forte como uma interjeição: DE!... DE!...
Isso. Outra vez: DE!... Boa...
Tudo junto, agora: INGEEEENUIIIDAAADEEE...
Mais rápido: INGENUIDADE!
Outra vez: Calma!... Só quando eu disser: um... dois... trêINGENUIDADE!...
Boa...

Ok, podem sair....

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2003/11/03

Não me lembro de ter tido um sonho tão giro como o desta noite. 

Era a cores (technicolor), em ecran panorâmico e passava-se no tempo dos romanos. Metia quadrigas, cidades escavadas em montanhas, muralhas vigiadas por guardas armados de lanças e escudos. Segundo entendi, eu era uma espécie de Messias, o gajo que ia liderar uma revolução qualquer. Era protegido por um senhor de idade, vestido de forma andrajosa, como eu, que me escoltou até ao interior da cidadela.
Lembro-me que quase fomos descobertos por uma patrulha de romanos, mas conseguimos escondermo-nos numa vala. Logo a seguir quase fomos atropelados por uma quadriga puxada por quatro cavalos negros. Fiquei sem fôlego.
Lembro-me também de ter contabilizado alguns erros de continuidade na narrativa, que o espectador do sonho facilmente iria detectar, a saber: antes de entrar na cidadela, eu e o meu "guia-protector" fomos a um mercado e compramos dois peixes grandes; mas, na cena seguinte, já estamos dentro da cidadela e não trazemos os peixes connosco; noutra altura, estou eu dentro de um quarto, trocando a minha roupa encardida de suor e pó por uma túnica de alvo linho (se bem me lembro, foi na parte em que eu aguardava a visita de uma ninfa meio sagrada que me ia revelar, na cama ali ao pé, algo de muito interessante que tinha a ver com o voo de águias), quando reparo que a vista da janela é lindíssima (vastas colinas castanhas sob uma céu azul profundo), mas tem visíveis umas muito anacrónicas antenas metálicas da rede eléctrica de alta tensão.
Decidi que tinha de alertar o realizador do sonho para isso.
Depois acordei, com o despertador. Sem perceber o coiso do voo das águias.
Isto não é ficção, foi mesmo um sonho...

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