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2004/01/05

LINGUAGEM 

- Certo dia à noite, estava eu a co...
- Quê?
- Quê o quê?
- Certo dia à noite? Que raio de frase é essa, certo dia à noite?
- Certo dia... à noite. Era um dia determinado, mas à noite...
- Então, ou dizes “certo dia" ou “certa noite”, não vais dizer certo dia à noite, isso é parvo, não tem lógica e é ridículo!...
- Calma...
- É mau português...
- E se tivesse sido de manhã?
- Não interessa se foi à noite ou...
- Certo dia de manhã... Também está mal?
- Está...
- Não está...
- Está... Dirias “certo dia” ou “certa manhã”... E não certo dia de manhã... isso é um português parvo e...
- Deixas-me contar a história ou não, porra?
- Não...
- Por que não?...
- Porque não suporto ver-te feliz!
- O quê? Que raio de português é esse? Não suportas ver-me feliz?
- Não...
- Não suportas ver-me feliz? Isso é parvo, não tem lógica, é ridículo!...
- Calma...
- É mau português...
- Não é não senhor!... É maldade, pura e simples!...
- Sem dúvida!...E eu que nem sequer estou feliz... Aliás, a história que te quero contar até é triste...
- Ah, então conta...
- ...
- Conta...
- Bom, certo dia à noi... certa noite, estava eu a comer...
- A jantar ...
- A jantar... a comer. Pode-se dizer comer. Estava a comer...
- Tens a certeza de que essa história é triste?...
- Tu não estás bem, pois não?
- Não.
- O que é que se passa, diz lá?
- Por que dizes “o que é que se passa” e não “o que se passa”? É mais simples, mais limpo, mais...
- Estás doente?
- Não...
- Problemas no emprego? Gajas?
- Estou desolado...
- Desolado?...Desolado?...
- Sim. Estou consciente, lúcido como nunca estive, sinto-me... despejado...
- Despejado?
- Sim...
- Não estou a perceber nada...
- Descobri uma coisa trágica. Apercebi-me de uma verdade inelutável...
- Uma verdade inelu... boa palavra!
- Não brinques...
- Não estou a brincar, diz lá então qual é essa verdade intleu... inilu...
- Inelutável.
- Isso...
- DESCOBRI QUE NUNCA VIREI A SER O QUE SEMPRE SONHEI VIR A SER UM DIA...
- Ena! É isso a coisa intleu... ine...
- É.
- Porque o disseste em maiúsculas?
- Maiúsculas? Eu não disse em maiúsculas...
- Pareceu-me. E o que vais fazer agora?...
- Não sei...
- Bom, não te quero desapontar, mas... Isso não me parece ser uma grande descoberta. Muito menos uma descoberta trágica...
- Cala-te.
- Não, a sério! Isso também eu já descobri de mim, e toda a gente descobre mais tarde ou mais...
- Cala-te!
- Então... Mas é verdade...
- Não quero saber o que pensas. Não quero saber a tua opinião, nem quero amenizar esta duríssima verdade que me varou o peito e me feriu de morte...
- Perdão?
- Que me varou de morte... Que me varou o... Que me varou o peito e me feriu de morte...
- Lindo. Podes não estar feliz mas as palavras estão a escolher-te muito bem...
- As palavras é que me estão a escolher?...
- Sim... É uma figura de estilo....
- Cala-te com as figuras de estilo. Odeio-as! Não quero que as manhas da linguagem escamoteiam este meu estado de completa desolação.
- Mas estás completamente desolado?
- SE TE ESTOU A DIZER QUE SIM, PORRA!
- Não precisas usar maiúsculas comigo!
- Desculpa...
- Quero ajudar-te...
- Como? Com conversa? O paleio só serve para nos ludibriarmos, não resolve nada... Prefiro um sentimento puro, como o que sinto agora, a qualquer sentimento postiço.
- Pois, pois. Tenho a certeza que essa verdade inetlu... initli...
- Inelutável...
- Isso... não sobreviria a uma conversa franca.
- Cala-te! Deixa-me estar...
- Qual é o mal?
- DEIXA-ME EM PAZ!
- Posso ao menos contar-te a história. É triste, prometo...
- NÃO, AGORA JÁ NÃO QUERO!...
- Tu não me uses maiúsculas, pá!... Eu chateio-me!
- Desculpa... Deixa-me estar cá consciente, lúcido como nunca, despejado...
- Desolado...
- Ou isso...
- Ao menos bebe mais um copo...
- Prometes ficar calado?...
- Não.

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