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2004/02/13

É agora, de hoje não passa! É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos,  


disse o poeta, pousando os talheres e degustando o último pedaço da deliciosa tarte de maçã com canela com que rematou aquele fecundo jantar. Do topo da mesa, para lá da garrafa vazia do tinto loquaz e pertinente que lhe fez companhia, conseguia ver agora o mundo inteiro, plano e linear, como sempre devia ser, e sob céu limpo.
Mas, ao contrário do que seria desejável, no desatar urgente do nó dialéctico enunciado pela fórmula cafezinho/cigarro, o seu olhar foi capturado pelos raios coloridos do televisor, em concreto pelas transbordantes maminhas de uma modesta actriz de telenovela, que soletrava emoções primárias com intensa actividade pulmonar.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, recostando-se no sofá. E aninhou-se no colo de um entorpecimento morno e aparentemente inofensivo, com maminhas transbordantes por almofada e cores quentes e rápidas a bailarem-lhe na cara. (Aninhou-se no colo de um entorpecimento morno porque podia, e sorte teve ele, quem me dera a mim! …)

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