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2004/03/25

Pronto. É agora que vou escrever o mais belo poema de todos os tempos, 

disse o poeta colocando a última pasta no armário (3/Z- 03/04), emergindo da repartição pública terrena e alcançando enfim o tempo da planície verdejante de que planeara servir-se para soltar as suas palavras. Abriu a porta aos substantivos primeiro, para se fartarem de trevos e ervinhas tenras, e depois aos pronomes pessoais, artigos e proposições, mais numerosos e traquinas. Aproveitou também para lanchar, deitando-se entre as raízes de um carvalho frondoso que pontuava a paisagem e degustando a sombra de um raminho de folhas aquecidas “al dente” pelo primeiro sol da Primavera.
Mas, ao contrário do que seria desejável, uma alcateia de adjectivos com cio e alguns advérbios mal encarados, irromperam os trambolhões pelo prado, provocando alvoroço e duvida nas restantes palavras, erguendo no ar poeira e ansiedade.
Fica para a próxima, disse o poeta por fim, abandonando o seu rebanho à natureza e lamentando não ter ali uns bons verbos para manter a ordem.
(Abandonou o seu rebanho porque podia e porque, afinal, não tem que prestar contas a ninguém…)

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2004/03/10

Socorro!... Rápido, é agora que tenho de escrever o mais belo poema de todos os tempos, porra!, 

disse o poeta mal abriu os olhos, emergindo esbaforido do sonho, ainda com resíduos viscosos na cara, braços e ombros. Estivera a sonhar consigo próprio a aperceber-se da sua própria singularidade e da fragilidade da sua identidade, dotada de absoluta permeabilidade à relatividade da fronteira entre a mediocridade e genialidade... Sentado ao balcão de um bar. Ficou tão enjoado que teve de acordar para se livrar desta repetição viciosa. Era urgente alinhar palavras redentoras e, de preferência, isentas de rima.
Mas, ao contrário do que seria desejável, e apesar do sol espreitar, muito curioso, pelos orifícios da persiana, o conforto da caminha quente e o facto de ainda só serem 7.45 da manhã concederam-lhe uma repentina e amorável esperança.
Fica para a próxima, disse o poeta, por fim, aconchegando-se melhor e virando-se para o outro lado.
E deixou-se adormecer até às 8.00H. (Deixou-se adormecer até às oito porque podia e porque só então tocaria o despertador…)


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