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2004/11/15

MANUAL DE DEFESA PESSOAL 

“Antes de uma mão forte, procura um coração audaz.”

É através de máximas como esta que os mestres das artes de combate condensam e transmitem o seu saber aos pupilos. Daí que fique bem começar este curso urbano de defesa pessoal assim, com classe e tradição. Mas na selva que é esta sociedade organizada, onde, apesar de tudo, ainda impera a lei do mais forte, importa, para sobreviver, deixarmo-nos de tretas e aceitar o facto de já ninguém ter tempo ou paciência para metáforas e insinuações. Há que ser prático, preciso, directo, o que é preciso é despachar pois não há tempo. E uma coisa é certa, de facto (a máxima lá de cima está muito bem, não está?, foi inventada há coisa de dois minutos... Obrigado. É uma coisa óbvia, mas mesmo assim...): em regra o mais forte não é o mais musculoso nem o mais ágil – é o mais esperto. Desde que não esteja fisicamente inválido, naturalmente. (Já agora, por falar em máximas, que tal esta: “No dar e levar, o importante é ser mais generoso que o nosso adversário”. Inventada agora mesmo... Bom, a verdade é que nunca se inventa nada, isto já está tudo inventado, o que nos limitamos a fazer é reciclar velhas ideias... Tempos difíceis, estes...). O poder de um indivíduo avalia-se a partir sua capacidade de decidir e adaptar-se, na sua habilidade para avaliar e escolher e agir. (E que tal este belo brocardo: “um adversário é vencido quando perde a vontade de lutar”. Foi coisa que nos veio à cabeça assim de repente, mas de certeza que já alguém o disse, não nos lembramos de quem...) De maneira que importa deixarmo-nos de tretas e aceitar o facto de já ninguém ter tempo ou paciência para metáforas e insinuações... (que é outra frase que nos parece familiar...). Mas para se ser esperto é preciso coragem, ter o tal coração audaz. E a primeira pergunta que um aluno deste curso-urbano-de-defesa-pessoal deve fazer é: serei corajoso? E se não for, poderei tornar-me num tipo(a) corajoso(a)? Ora, sem coragem não se faz nada, temos de ser corajosos a todo o instante. Está cientificamente provado, todavia, que a maneira mais fácil de ser corajoso é não ter consciência de se estar a ser corajoso. Por isso, a primeira lição deste curso-urbano-de-defesa-pessoal é: não queiras saber se és corajoso, não ligues a isso. O que é o mesmo que dizer, traduzido para a forma de máxima, que é mais giro: “Não queiras saber se és corajoso, não ligues a isso”.
E depois? Depois é manter uma atitude reivindicativa e voluntariosa de que nunca deveríamos ter prescindido. Já é tempo de o português se libertar do nacional porreirismo com que se auto amordaçou durante décadas, resquícios de um regime bolorento que se devem finalmente eliminar. Isso de sermos um pais de brandos costumes, é sabido, foi a mentira mor com de que um regime conservador se serviu para nos domar, e que consistiu, na prática, numa razia à nossa auto-estima colectiva. Desde então não temos sido senão “portuguesinhos”. Pelo que, posto isto, estamos em condições de passar à segunda lição deste curso-urbano-de-defesa-pessoal: “É verdade, confirma-se – você é um cidadão deste mundo como outro qualquer, e dos que não está para aturar tudo e mais alguma coisa”.
As premissas como as explanadas nestas duas primeiras lições são, para já, o mais importante neste curso. Os cidadãos-pupilos deverão, durante a próxima semana, treinar estas técnicas – uns bons cinco minutos por dia será suficiente – com os amigos, os vizinhos, ou mesmo com os inimigos, para quem já os tiver catalogados, para depois absorverem com maior facilidade os truques e golpes que, de seguida, aqui se irão apresentar e ilustrar.
Hoje podemos dizer que há pessoas que vivem toda a vida sem terem de ir ao focinho a alguém, o que é, por si só, um avanço civilizacional espantoso. Mas, a bem da afirmação da dignidade de todo o indivíduo, portugueses incluídos, isso vai ter que acabar. Sim, a confrontação física. Sem pudores, vamos aqui explicar como resolver as coisas à chapada. É tempo de nos fazermos valer como merecemos.

Próxima lição: O murro enquanto uma afirmação ontológica.

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